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Kofi Annan


Kofi Annan, cidadão do Gana, é o sétimo Secretário-Geral das Nações Unidas. Tendo sido o primeiro Secretário-Geral eleito dentre os funcionários das Nações Unidas, iniciou o seu mandato a 1 de Janeiro de 1997. A 29 de Junho de 2001, por recomendação do Conselho de Segurança, a Assembleia Geral elegeu-o por aclamação para um segundo mandato, que terá início a 1 de Janeiro de 2002 e terminará a 31 de Dezembro de 2006.

As prioridades de Kofi Annan como Secretário-Geral têm sido revitalizar as Nações Unidas, graças a um vasto programa de reforma; reforçar o trabalho que a Organização leva tradicionalmente a cabo em prol do desenvolvimento e da paz e da segurança internacionais; incentivar e promover os direitos humanos, o estado de direito e os valores universais da igualdade, da tolerância e da dignidade humana consagrados na Carta das Nações Unidas; e ainda restabelecer a confiança da opinião pública na Organização, chegando a novos parceiros e, como já disse, "tornando as Nações Unidas mais próximas das pessoas."

Kofi Annan nasceu em Kumasi, no Gana, a 8 de Abril de 1938. Estudou na Universidade de Ciência e Tecnologia de Kumasi, no Gana, e completou o seu Bacharelato em Economia no Macalester College, em St. Paul, Minnesota (EUA), em 1961. De 1961 a 1962, terminou a sua licenciatura em Economia no Institut universitaire des hautes études internationales, em Genebra. Em 1971-1972, como bolsista da Fundação Sloan no Massachusetts Institute of Technology, obteve um Mestrado em Gestão.

Kofi Annan começou a trabalhar para o sistema das Nações Unidas em 1962, como funcionário de administração e orçamento da Organização Mundial de Saúde em Genebra. Desde então, prestou serviço na Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, em Adis Abeba; na Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF II) em Ismailia; e no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, em Genebra. Na Sede da Organização das Nações Unidas em Nova Iorque, ocupou os cargos de Subsecretário-Geral para a Gestão dos Recursos Humanos e Coordenador para as Medidas de Segurança do Sistema das Nações Unidas (1987-1990) e, posteriormente, de Subsecretário-Geral para Planeamento de Programas, Orçamento e Finanças e de Controlador (1990-1992).

Em 1990, no continuidade da invasão do Kuweit pelo Iraque, Kofi Annan foi encarregado pelo Secretário-Geral de facilitar o repatriamento de mais de 900 funcionários internacionais e a libertação de reféns ocidentais no Iraque. Em seguida, dirigiu a primeira equipe das Nações Unidas encarregada de negociar com o Iraque a venda de petróleo destinada a financiar compras no âmbito da ajuda humanitária.

Antes de ser nomeado Secretário-Geral, Kofi Annan ocupou igualmente os cargos de Subsecretário-Geral para as Operações de Manutenção da Paz (Março de 1992 – Fevereiro de 1993) e, mais tarde, de Secretário-Geral Adjunto para as Operações de Manutenção da Paz (Março de 1993 – Dezembro de 1996). Durante o período em que desempenhou as funções de Secretário-Geral Adjunto, as operações de manutenção da paz das Nações Unidas conheceram uma expansão sem precedentes; em 1995, atingiram um recorde com cerca de 70.000 militares e civis, em 77 países.

De Novembro de 1995 a Março de 1996, depois de o Acordo de Dayton ter posto fim à guerra na Bósnia e Herzegovina, Kofi Annan ocupou o cargo de Representante Especial do Secretário-Geral para a ex-Jugoslávia e supervisionou a transição da Força de Protecção das Nações Unidas (UNPROFOR) para a Força Multinacional de Implementação (IFOR), dirigida pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

A primeira grande iniciativa de Kofi Annan como Secretário-Geral foi o seu programa de reforma, intitulado "Renovar as Nações Unidas", que foi apresentado aos Estados Membros, em Julho de 1997. Este programa, que continua a ser aplicado ainda hoje, põe a tônica numa maior coerência e numa melhor coordenação no funcionamento das Nações Unidas. O relatório intitulado "As Causas dos Conflitos e a Promoção de uma Paz Duradoura e de um Desenvolvimento Sustentável na África", apresentado ao Conselho de Segurança em Abril de 1998, inscreveu-se no quadro dos esforços feitos por Kofi Annan para reforçar o compromisso da comunidade internacional para com a África, uma das regiões mais desfavorecidas do mundo.

Kofi Annan usou os seus bons ofícios, em diversas situações, para tentar resolver crises políticas, notadamente para convencer o Iraque a cumprir as resoluções do Conselho de Segurança; para facilitar a transição para um regime civil na Nigéria; e para encontrar uma solução para as diferenças entre a Líbia e o Conselho de Segurança relacionado com o atentado perpetrado em Lockerbie, em 1988. Desenvolveu ainda esforços diplomáticos, em 1999, para forjar uma resposta internacional à violência no Timor Leste; desenvolveu também esforços para certificar a retirada de Israel do Líbano, em Setembro de 2000 e, mais tarde, na seqüência da nova explosão de violência de Setembro de 2000, para incentivar os Israelitas e os Palestinos a resolverem as suas diferenças por meio de negociações pacíficas, com base nas Resoluções 242 e 338 do Conselho de Segurança e no princípio de "terra em troca de paz".

Procurou, igualmente, melhorar a condição das mulheres no Secretariado e fortalecer os laços com a sociedade civil, o setor privado e outras entidades cujas atividades completam as do sistema das Nações Unidas. Em particular, apelou a um "Pacto Global" que envolvesse os líderes da comunidade empresarial bem como organizações laborais e da sociedade civil, tendo em vista permitir que todas as pessoas do mundo partilhem os benefícios da globalização e enraizar no mercado global os valores e práticas que são fundamentais para satisfazer as necessidades socio-econômicas.

Em Abril de 2000, publicou um Relatório do Milênio, intitulado "Nós, os Povos: O Papel das Nações Unidas no Século XXI", em que exorta os Estados Membros a renovarem o seu compromisso em relação a um plano de ação destinado a acabar com a pobreza e a desigualdade, a melhorar a educação, a reduzir o HIV/AIDS (VIH/SIDA), a salvaguardar o ambiente e a proteger as pessoas de conflitos letais e da violência. O Relatório constituiu a base da Declaração do Milênio, aprovada por Chefes de Estado e de Governo na Cúpula do Milênio, que se realizou em Setembro de 2000, na Sede da ONU.

Em Abril de 2001, o Secretário-Geral divulgou um "Apelo à Ação", com cinco pontos, tendo em vista vencer a epidemia do HIV/AIDS (VIH/SIDA) – que classificou de "prioridade pessoal" – e propôs a criação de um Fundo Mundial para a AIDS (SIDA) e a Saúde, que deverá ser o mecanismo a ser utilizado para alguns dos gastos adicionais necessários para ajudar os países em desenvolvimento a enfrentarem a crise.

A 10 de Dezembro de 2001, o Secretário-Geral e as Nações Unidas receberam o Prêmio Nobel da Paz. Ao conceder-lhe o Prêmio, o Comitê Nobel disse que Kofi Annan "se distinguiu por dar uma nova vida à Organização". Ao conceder o Prêmio à Organização mundial, o Comitê disse querer "proclamar que a única via para a paz e a cooperação mundiais são as negociações através das Nações Unidas".

Kofi Annan fala fluentemente inglês, francês e diversas línguas africanas. É casado com Nane Annan, cidadã sueca, jurista e que também se dedica às artes. Nane Annan tem estado profundamente empenhada em acompanhar o trabalho das Nações Unidas, em campo. O HIV/AIDS (VIH/SIDA) e a educação das mulheres são duas áreas às quais tem dedicado particular atenção. Também escreveu um livro para crianças sobre as Nações Unidas. Kofi e Nane Annan têm três filhos.
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António José de Almeida


Nasceu em Vale da Vinha, concelho de Penacova, em 1866, e contava 25 anos quando se deflagrou a revolta do Porto. Formou-se em Medicina. Orador de uma eloquência fascinadora, possuia a alma de um romântico caudilho. Preparava-se para o professorado na Universidade, mas o seu ímpeto, o fulgor da sua palavra, o irrequietismo de combatente, não foram propícios para a carreira em que decerto se notabilizaria.
Em 23 de Março de 1890 publicou no jornal académico "O Ultimatum", o artigo Bragança, o último que produziu enorme eco no país, sendo o autor processado. Defendeu-o o Doutor Manuel de Arriaga mas foi condenado a três meses de prisão o que espalhou o seu nome, até aí apenas conhecido entre os condiscípulos. Publicou então, o livro Desafronta e Palavras de um intransigente.
Quando terminou o curso partiu para S. Tomé. Ali exerceu clínica, notabilizando-se no tratamento das doenças dos países quentes, adquirindo alguns meios de fortuna.
No funeral de Rafael Bordalo Pinheiro, conquistou as admirações pela brilhante e ousada oração que pronunciou. Tornou-se um dos mais queridos chefes da republicanos, cercou-o verdadeira aura popular. Combateu em comícios ao lado de Afonso Costa, Alexandre Braga, Bernardino Machado, Manuel de Arriaga e outros célebres oradores do movimento democrático. Foi eleito deputado do seu partido em 1906.
Tomou parte na conspiração contra a ditadura de João Franco sendo enclausurado quando dos acontecimentos de Janeiro de 1908. Posto em liberdade, continuou a sua propaganda nas páginas dum panfleto, Alma Nacional, e no livro A Monarquia Nova.
Proclamada a República, foi escolhido para a pasta do Interior no Governo Provisório. Fundou o jornal "República", em cujas páginas combateu veemente os processos do governo, contrários à sua maneira de sentir.
Depois da revolução de Sidónio Pais, deflagrada a 5 de Dezembro de 1918, e da revolta monárquica de Monsanto, a 19 de janeiro de 1919, António José de Almeida foi eleito para a presidência da República, em 6 de Agosto, cargo que assumiu até 5 de Outubro de 1923.
Sofrendo de gota durante grande parte da sua vida, foi-se gradualmente afastando da política. Faleceu na madrugada de 31 de Outubro de 1929. O seu funeral desencadeou uma grande manifestação de pesar, no qual tomaram parte individualidades de todos os partidos políticos.
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Friedrich Adler


Friedrich Adler (9 de julho de 1879, Viena - 2 de janeiro de 1960, Zurique) foi um político austríaco.

Era filho de Victor Adler, o fundador da social-democracia na Áustria.Em 1897 se afiliou ao partido Social Democrata da Áustria e em 1907 foi editor da magazine Der Kampf. Foi também o líder da ala esquerda socialista que se colocou contra à política favorável ao esforço bélico do Partido Social-Democrata durante a Primeira Guerra Mundial. Em forma de protesto contra o Estado de exceção que foi decretado em 1916, no dia 21 de outubro do mesmo ano, no restaurante do hotel Meißl und Schadn disparou três vezes contra o primeiro-ministro da Áustria, o Conde Karl von Stürgkh, matando-o. Foi condenado à morte, pena que foi porém, atenuada para apenas 18 anos de prisão. Finalmente, foi anistiado em novembro de 1918.

Como líder dos social-democratas, combateu a influência dos comunistas dentro do movimento operário austríaco no final da Primeira Guerra Mundial. A partir de 1923 foi secretário da Internacional Socialista dos Trabalhadores (organização sucessora da Segunda Internacional, com sede em Zurique). Em 1940 mudou-se para os Estados Unidos mas voltou para a Europa em 1946.
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Miguel Arraes de Alencar


Político, advogado, governador de Pernambuco por três vezes, nasceu a 15 de dezembro de 1916, no município Araripe, Ceará, onde freqüentou os primeiros anos de escola.

Em 1932, concluiu o curso secundário no Colégio Diocesano, no Crato, também Estado do Ceará, e em seguida mudou-se para o Recife, com o propósito de continuar os estudos e seguir uma carreira profissional.

“Naquela época, diria depois, nunca me passou pela cabeça ser governador dos pernambucanos”.

Ao chegar no Recife, o jovem Miguel Arraes presta concurso público e torna-se, em 1933, funcionário do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Em 1937, conclui o curso superior na Faculdade de Direito do Recife e continua sua carreira de servidor público.
Foi graças a essa sua passagem pelo IAA que Arraes se tornaria político. Ali, ele conheceu Barbosa Lima Sobrinho, que chegou a ser presidente do Instituto e, em 1943, o nomeou Delegado Regional do IAA em Pernambuco.

Miguel Arraes iniciou a carreira política em 1948, ocupando o cargo de secretário estadual da Fazenda, a convite do então governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho.

A primeira eleição ele disputou em 1950, elegendo-se suplente e assumindo o mandato de deputado estadual. Em 1958 conquista novamente uma vaga na Assembléia Legislativa de Pernambuco.

Em 1963, quando governador, com o líder do governo na Câmara Municipal de Riacho das Almas, José Magno Sobrinho, e o prefeito Noé Hipólito.

Em 1959, foi secretário da Fazenda no governo Cid Sampaio e eleito prefeito do Recife, lançado pela chamada “Frente do Recife”.

Em 1962, Miguel Arraes (PST) é eleito pela primeira vez governador de Pernambuco, com 47,98% dos votos, derrotando os candidatos João Cleofas (UDN) e Armando Monteiro (PSD).

No seu governo (que não chegaria a concluir), Arraes desencadeou um programa de caráter “nacional e popular”, com ações voltadas sobretudo para os trabalhadores rurais.

A 01 de abril de 1964, Miguel Arraes é deposto pelo golpe militar, saindo do Palácio do Governo, no Recife, direto para a prisão.

A deposição de Miguel Arraes, como as demais intervenções dos militares golpista no País, foi um espetáculo cinematogáfico. Fortemente armadas, tropas militares cercaram o Palácio do Governo e, inicialmente, tentaram fazer com que o governador renunciasse.

Arraes não obedeceu, sob a alegação de que a renúncia seria uma traição ao povo que o elegera (“prefiro ir pra cadeia a trair o povo”), e ali mesmo recebeu voz de prisão, tendo em seguida perdido todos os seus direitos políticos.

O dia primeiro de abril de 1964 foi uma quarta-feira e o governador Miguel Arraes acordou sob a mira de canhões colocados no Cais do Apolo e na Rua da Aurora, apontando para o Palácio do Governo.

Um grupo de estudantes organizava, no centro do Recife, uma passeata em defesa da legalidade e era recebido à bala por tropas do Exército. Três pessoas foram mortas e várias feridas. A redação do jornal Última Hora foi fechada e os jornalistas presos.

À tarde, havia vários presos em todo o Estado. Quando Arraes deixou o Palácio, já era início da noite. Num fusca, ele foi levado para o Quartel de Socorro, em Jaboatão dos Guararapes, e em seguida foi conduzido para a ilha de Fernando de Noronha, onde permaneceu onze meses.

Passou ainda pelas prisões da Companhia da Guarda, do Corpo de Bombeiros, e da Fortaleza de Santa Cruz, esta no Rio de Janeiro, onde se encontrava a 25 de maio de 1965, quando foi libertado através de um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal e embarcou para a Argélia.

Depois de viver 14 anos no exílio, em 1979 Miguel Arraes é beneficiado pela anistia concedida pelo governo brasileiro a todos os banidos pelo movimento militar de 1964 e retorna ao Brasil.

Chega ao Recife a 16 de setembro, sendo recepcionado com um gigantesco comício no largo de Santo Amaro, ao qual compareceram cerca de 60 mil pessoas.

Retoma sua trajetória política filiado ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e, em 1982, é eleito o deputado federal mais votado do Norte e Nordeste. Em 1986, ainda pelo PMDB, Miguel Arraes é eleito pela segunda vez governador de Pernambuco, conquistando 53,5% dos votos, derrotando José Múcio, do PFL.

Além de voltar ao Palácio das Princesas, Arraes elege os dois senadores (Mansueto de Lavor e Antônio Farias), impondo uma surpreendente derrota ao favorito Roberto Magalhães (PFL).

Em 1990, já pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), do qual foi fundador e presidente nacional, Arraes é eleito o deputado federal mais votado do Brasil Em 1994, é eleito pela terceira vez governador de Pernambuco, derrotando Gustavo Krause (PFL) por uma diferença de mais de 300 mil votos.

Em 1998, ainda no cargo de governador, Arraes decide disputar a reeleição contra Jarbas Vasconcelos (seu antigo aliado e agora candidato de uma aliança PMDB/PFL). Miguel Arraes fez toda a campanha criticando a política econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso e perdeu a eleição para Jarbas por uma diferença de mais de 1 milhão de votos. Em 2002, mais uma vez elege-se deputado federal.

Miguel Arraes morreu a 13 de agosto de 2005, às 11h40m, no Hospital Esperança, Recife, onde estava internado desde 17 de junho, por conta de uma infecção pulmonar. Segundo boletim médico, a causa da morte foi “choque séptico causado por uma infecção respiratória agravada pela insuficiência renal que ele vinha apresentando.


Ao velório do ex-governador, no Palácio das Princesas, compareceram autoridades e políticos de todo o Brasil, entre os quais o presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, vários ministros, o governador e o prefeito de São Paulo, deputados e senadores de vários Estados, além de artistas como o compositor Caetano Veloso.

Milhares de pessoas acompanharam o cortejo até o Cemitério de Santo Amaro, onde o corpo de Miguel Arraes foi sepultado.
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Osvaldo Euclides de Sousa Aranha


Político gaúcho nascido em Alegrete, considerado um dos arquitetos da Revolução (1930), com grande influência no primeiro governo de Getúlio Vargas. Iniciou-se na política como intendente de sua cidade natal e subchefe de polícia de Porto Alegre. Elegeu-se deputado federal (1927) e conduziu a negociação com a Junta Militar Governativa Provisória formada pelo Contra-Almirante Almir José Isaías de Noronha, o General Augusto Tasso Fragoso e o General João de Deus Mena Barreto, no Rio de Janeiro, para a entrega do governo a Vargas. Nomeado Ministro da Justiça e Negócios Interiores (1930), logo assumiu a pasta da Fazenda (1031) e depois foi nomeado embaixador em Washington (1934). Deixou a embaixada em protesto contra o Estado Novo (1937), mas retornou como ministro das Relações Exteriores (1938-1944). Chefiou a delegação brasileira na primeira Sessão Especial da Assembléia Geral da ONU (1947), e defendeu a criação do Estado de Israel. Voltou ao Ministério da Fazenda (1953) e no governo Juscelino Kubitschek, retornou à ONU, chefiando a delegação brasileira. Morreu no Rio de Janeiro.
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Francisco de Paula Rodrigues Alves



Francisco de Paula Rodrigues Alves, foi o terceiro presidente civil e paulista seguido a ocupar o cargo de Presidente do Brasil. Graças ao governo esforçado de Campos Sales para reduzir os danos econômicos do país, Rodrigues Alves assumiu em melhores situações financeiras e dedicou seu governo a uma revitalização e modernização dos espaços públicos que passavam por situações de degradação.
O paulista, nascido na cidade de Guaratinguetá em 7 de julho de 1848, Francisco de Paula Rodrigues Alves era filho do português Domingos Rodrigues Alves com Isabel Perpétua Marins. Teve sua formação básica no Colégio Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, em regime de internato e mais tarde formou-se em Letras na Academia do Largo de São Francisco na turma de 1870.

Voltando para Guaratinguetá exerceu as profissões de juiz de paz, promotor e advogado. Entrou então para a política e foi eleito vereador pela mesma cidade de Guaratinguetá. Tornou-se ainda um empresário do café de grande sucesso e enorme riqueza, a qual foi considerada a terceira maior fortuna do país. Morava em uma fazenda com 400 cômodos.

Logo foi eleito deputado provincial por São Paulo, representando o Partido Conservador. Exerceu dois mandatos, de 1872 a 1875 e também de 1878 a 1879. Em 1885 foi eleito deputado geral, ainda pelo Partido Conservador, permanecendo no posto até 1887, quando finalmente assumiu a presidência da província de São Paulo, até 1888. Neste ano sua ocupação foi como conselheiro do Império.

Nos dois últimos anos da Monarquia no Brasil, 1888 e 1889, voltou a ser deputado provincial. Já no início do período republicano tomou lugar na Assembléia Nacional Constituinte como deputado, onde permaneceu até 1891. Após a renúncia do presidente Deodoro da Fonseca, tornou-se ministro da Fazenda do presidente Floriano Peixoto entre 1891 e 1892, voltando ao cargo no governo de Prudente de Morais, entre 1895 e 1896. Daí seguiram-se dois mandatos como Senador do estado de São Paulo representando o Partido Republicano Paulista (PRP), tendo fim em 1900.

Em 1902 Rodrigues Alves foi eleito então Presidente da República, assumindo no dia 15 de novembro. Sua eleição foi fruto do acordo político chamado de Política dos Governadores elaborado e implantado pelo seu antecessor Campos Sales. Rodrigues Alves representava também o acordo estabelecido entre as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo.

O governo de Prudente de Morais foi beneficiado pela recuperação econômica promovida por Campos Sales no mandato anterior. O ex-presidente trabalhou no momento mais difícil, no qual era preciso fazer alguns sacrifícios e esforços para colocar a economia nacional nos eixos. O resultado de seu empenho foi aproveitado por Rodrigues Alves, que desfrutando de mais dinheiro nos cofres públicos dedicou seu governo a recuperação dos espaços públicos que estavam em situações de calamidade. O dinheiro era proveniente dos capitais estrangeiros e do repentino estouro da borracha amazônica no mercado mundial.

As ações do presidente tiveram enfoque maior na então capital da República, Rio de Janeiro. Para a prefeitura da capital nomeou o engenheiro Pereira Passos, dando-o plenos poderes para promover uma modernização na cidade. Esta se deu através de ampliação do porto, alargamento de ruas e construção de avenidas. Além disso, regulamentaram-se novas posturas políticas, como a proibição do comércio ambulante.

Politicamente, no escopo interno, o presidente Rodrigues Alves combateu a primeira greve geral ocorrida na capital republicana, no dia 15 de agosto de 1903. Já externamente, foi em seu governo que o Tratado de Petrópolis foi assinado. Este definiu os limites entre Brasil e Bolívia e determinou que o território do Acre seria de possessão brasileira.

Embora não fosse interesse de Prudente de Morais, o Convênio de Taubaté foi concluído e aprovado em seu governo pelo Congresso Nacional. Através de tal convênio ficava estabelecido que o governo federal compraria o excedente da produção de café para valorizar o preço do produto no mercado mundial, o que satisfazia a vontade da oligarquia cafeeira.

No tocante social ocorreu a famosa Revolta da Vacina. O médico e cientista Osvaldo Cruz, que dirigira o Instituto Manguinhos, foi nomeado pelo presidente como diretor geral de Saúde Pública, com a responsabilidade de combater as epidemias presentes de peste bubônica e febre amarela. Em 1904 estabeleceu-se a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, representantes do governo iam até a casa das pessoas para cumprir o estabelecido. Inconformados e com pouco conhecimento sobre o assunto, a população se rebelou contra a vacinação tomando as ruas do Rio de Janeiro em protesto no dia 10 de fevereiro.

Após deixar a presidência, Prudente de Morais voltou a governar o estado de São Paulo entre 1912 e 1916. Entre 1916 e 1918 exerceu mais uma vez o cargo de Senador e foi eleito neste último ano Presidente da República. Entretanto, Prudente de Morais estava com a saúde debilitada e não teve condições de tomar posse, acabou falecendo no Rio de Janeiro no dia 16 de janeiro de 1919.

Hoje é considerado o presidente da República Velha que mais se preocupou com a população. Recebeu como homenagem seu nome empregado na cidade de Presidente Alves (SP).
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Louis Daniel Armstrong


Apelidado de Satchmo, nasceu em New Orleans, Estados Unidos, dia 4 de julho de 1900 e foi um brilhante solista de trompete e corneta na Era do Blues onde o jazz ainda nem existia.
Mais tarde, Armstrong, viria a ser um dos maiores representantes do jazz, ou como diriam os críticos mais
exigentes: " - Se Armstrong não tivesse existido, o jazz não seria reconhecido como é: um modo universal de expressão musical."
Começou a tocar aos 13 anos, em uma banda amadora na casa de correção de juvenil, prisão de Waif's Home. Em New Orleans, já com 14 anos e livre da prisão, começou
a tocar em casas noturnas e nas grandes barcas do rio Mississippi.
Foi na zona da prostituição de Nova Orleans, a Storyville, que conheceu grandes nomes daquilo que viria a ser o jazz, como Sidney Bechet e Joe Lindsay.
Quando a Storyville foi fechada pela Marinha americana, todos se mudaram para Chicago para conseguir emprego.
Em 1922, Satchmo entrou para o grupo de "King Oliver", a King Oliver's Creole Jazz Band, onde passou a ser ouvido por maiores públicos e suas gravações estão entre as primeiras a apresentar artistas negros.
Em 1925, após apresentar-se com a banda de Fletcher Henderson em New York, voltou a Chicago e formou seu próprio grupo, o Louis Armstrong Hot Five, com o qual fez gravações tidas até hoje como clássicos "Chicago Dixieland".
Em 1932, realizou a primeira de muitas bem sucedidas excursões a Europa e sua popularidade crescia com o rádio, filmes e mais tarde, televisão.
Seu estilo "Scat Singing", inconfundível de cantar, tornou-se sua marca registrada, tanto quanto o tom de seu trompete.
O "scat" é um modo de interpretação vocal em que o vocalista emite sílabas sem sentido, em vez da letra da canção, atentando apenas para o valor fonético das sílabas e procurando imitar um solo instrumental.
Armstrong permanece como um dos mais famosos nomes do blues e do jazz de todos os tempos. Sua eterna gravação de "What A Wonderful World" chegou à era dos vídeo-clips voltando a conhecer o sucesso nos anos 80 e 90.
Passados quase 20 anos de sua morte, ocorrida em 6 de julho de 1971, uma de suas últimas gravações, a música "We Have All The Time In The World", foi tema do filme "007 On Her Majesty's Secret Service", onde
podemos mais uma vez observar um de seus inesquecíveis e imortais solos.

Curiosidade: o estilo "scat" é muito utilizado no canto de artistas brasileiros como João Bosco e Djavan.
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António Victorino D’Almeida


António Victorino D’Almeida, nasceu em Lisboa, em 21 de Maio de 1940.

Aluno de Campos Coelho, finalizou o Curso Superior de Piano do Conservatório Nacional de Lisboa com 19 valores, após o que se seguiu para Viena, onde se diplomou em Composição com a mais alta classi-ficação conferida pela Escola Superior de Música daquela cidade (hoje Faculdade da Música), tendo sido aí aluno de Karl Schiske.

Como concertista, desenvolveu uma intensa carreira internacional, cotando-se entre os melhores pianistas portugueses do seu tempo, mas reduziu inevitavelmente essa actividade a partir do momento em que aceitou o posto de Adido Cultural em Viena.

Tal não o impediu, porém, de gravar mais tarde um CD editado pela ETE de Viena com a integral das 19 Valsas de Chopin, o qual recebeu o mais vivo elogio de figuras como, por exemplo, Alfred Brendel, e que muitos apontam como sendo uma das melhores interpretações de sempre dessa obra.

Desenvolveu mais uma enorme actividade (mais de setecentos e cinquenta concertos, um pouco por toda a Europa) com a artista austríaca Erika Pluhar (e também com o guitarrista búlgaro Peter Marinoff e, mais recentgemente, com o cantor português Carlos Mendes), nos quais adaptou uma técnica pianística clássica, virtuosística e reconhecidamente inovadora a uma importante revitalização do chamado Wienerlied, a “canção vienense”, e de muitos dos mais famosos standarts americanos, tendo obti-do um grande êxito internacional com o CD “For Ever”.

A sua principal actividade é todavia a composição, sendo sem dúvida um dos compositores portugueses que mais obra produziu, desde a música a solo, para piano e outros instrumentos, à música de câmara, à música sinfónica e coral-sinfónica, ao “Lied” ou à ópera, além de muita música para cinema ou para teatro, tendo recebido o elogio expresso de figuras com a importância de um Hans Swarowski, de um Godfried von Einem, de um João de Freitas Branco ou de um Dimitri Schostakovitch.

Aproximando-se o 50º aniversário do seu início de carreira como compositor, quatro obras de sua autoria foram interpretadas, juntamente com a Sonata de Liszt, pela pianista austríaca Ingeborg Baldaszti no mais recente Festival de Bregenz

Existem neste momento no mercado português cinco CD’s da editora “Numérica” integralmente preenchidos com a sua música, além de outros CD’s , nomeadamente do “Opus Ensemble”, que englobam obras de sua autoria.

Na Áustria e na Alemanha, tem vários discos e CD’s gravados com Erika Pluhar, e a banda sonora musical do filme “Capitães de Abril” está editada em Itália.
Embora não se considere a si próprio como um chefe de orquestra de raiz, já dirigiu praticamente todas as orquestras portuguesas e também algumas importantes orquestras estrangeiras.

Aluno no curso do liceu de figuras como António José Saraiva ou Jorge Borges de Macedo, foi por estes incentivado a dedicar-se à escrita literária, sendo actualmente autor de oito livros, tanto de ficção (“Coca-cola killer”, “Tubarão 2000”, “Histórias de Lamento e Regozijo”, “Um caso de Bibliofagia”), como de reportagem (“Polisário, Memória da Terra Esquecida”) ou ainda sobre música (“Musica e Variações”, “O que é a Música” ou “ Músicas da minha Estante”).

É ainda autor dos guiões já publicados da série “Duetos Im-previstos”, que apresentou na televisão com Bárbara Guimarães, da adaptação para teatro musicado de “A Relíquia” de Eça de Queiroz, que esteve quase dois anos em cena no teatro da “Barraca”, do guião do seu próprio filme, “A Culpa”, de vários outros guiões cinematográficos, nomeadamente das várias séries que apresentou na televisão, de peças de teatro, ensaios, etc..

Como realizador de cinema, é autor de “A Culpa”, o primeiro filme português a receber um 1ºPrémio num Festival Internacional do estrangeiro (Huelva, 1980), de “As Mesas de Mármore” (filme austríaco com André Heller e Erika Pluhar nos protagonistas) e do documentário “Gemeinsam”, encomendado ORF.

Também tem trabalhado em Rádio e actuou pontualmente como actor em filmes e séries televisivas.

Foi presidente do Sindicato dos Músicos, e desempenhou durante sete anos o cargo de Adido Cultural da Embaixada de Portugal em Viena, tendo recebido duas das mais importantes condecorações atribuídas pela Presidência da República da Áustria..

É pai das actrizes e realizadoras Maria de Medeiros e Inês de Medeiros, e da violinista e compositora Ana Victorino D’Almeida.
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José Afonso


Zeca Afonso foi um notável compositor de música de intervenção, durante um dos mais conturbados períodos da história recente portuguesa. Como compositor, soube conciliar de forma notável a música popular e os temas tradicionais com a palavra de protesto.

José Afonso, de nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, filho de José Nepomuceno Afonso, magistrado, e de Maria das Dores, professora primária.

Em 1930 os pais vão para Silva Porto (actual Cuíto), Angola, onde o pai havia sido colocado como Delegado do Ministério Público. Por razões de saúde, José Afonso permanece em Aveiro, na casa da Fonte das Cinco Bicas, confiado à tia Gigé e ao tio Xico, um "republicano anticlerical e anti-sidonista". Por insistência da mãe, em 1932, e já com três anos e meio de idade, segue para Angola, no vapor Mouzinho, acompanhado por um primo que ia em lua-de-mel, e que o deixa ao abandono vindo a agarrar-se a um sacerdote, a única pessoa que lhe presta atenção.

Permanece três anos na antiga colónia portuguesa, e aí inicia a instrução primária. José Afonso diz que esta permanência em África deixou uma marca profunda na sua vida: «a África era uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim, contactos com fenómenos da natureza extremamente prepotentes como eram as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças, etc., etc. (...) A África como entidade física é uma coisa que pesou muito na minha vida e nas minhas recordações». Em 1936 regressa a Aveiro, passando a viver na casa de uma tia materna. No ano seguinte, com 8 anos de idade, vai de novo ao encontro dos pais e dos irmãos, agora em Moçambique, mais concretamente na cidade de Lourenço Marques (actual Maputo). Os irmãos serão uma presença forte na vida de José Afonso: João, mais velho, é uma figura próxima da estrutura do clã, que o apoiará em ocasiões difíceis um pouco ao longo de toda a sua vida; Mariazinha, mais nova, concitará os seus afectos, bem patentes nas cartas que lhe escreve. Regressa a Portugal, passados dois anos, desta vez para casa do tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. É nesta vila da Beira Baixa que Zeca conclui a quarta classe e prepara o exame de admissão ao liceu. O tio, salazarista convicto e comandante da Legião Portuguesa, fá-lo envergar a farda da Mocidade Portuguesa. «Foi o ano mais desgraçado da minha vida», confessaria Zeca mais tarde. Não obstante, é neste período que José Afonso toma contacto com as canções tradicionais que virão a ter uma grande importância na sua obra.

Em 1940, com 11 anos de idade, vai para Coimbra para prosseguir os estudos ficando instalado em casa da tia Avrilete. É matriculado no Liceu D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão) e aí conhece António Portugal e Luiz Goes, ambos mais novos do que ele. A família deixa Moçambique e parte para Timor, onde o pai vai exercer as funções de juiz. A irmã Mariazinha vai com os pais, enquanto seu irmão João vem para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos Japoneses, no âmbito da Segunda Guerra Mundial, José Afonso fica sem notícias dos pais durante três anos, até ao final da guerra, em 1945.

Nesse mesmo ano (andava no 5.º ano do liceu) começa a cantar serenatas, o que lhe dá não só estatuto mas também privilégios praxistas. José Afonso, a quem chamavam "bicho-cantor" ("bicho" era a designação praxística para os estudantes liceais), gozava, por exemplo, do privilégio de não ser "rapado" pelas trupes que, depois do pôr-do-sol, saíam para as ruas da cidade à procura de "bichos" e caloiros. Em acumulação, Zeca beneficiava também desse tratamento especial, por jogar futebol nos juniores da Académica. Em 1948, após dois chumbos, completa o curso dos liceus. Conhece Maria Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a casar em segredo, por oposição dos pais, e para grande escândalo das tias. Faz viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica.

Em 1949 inscreve-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, da Faculdade de Letras. Vai a Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra. Em Janeiro de 1953 nasce-lhe o primeiro filho, José Manuel. Dá explicações e trabalha como revisor no Diário de Coimbra. A condição de estudante e de trabalhador fá-lo tomar consciência dos problemas sociais que o marcariam de forma decisiva: «Havia uma sociedade de indivíduos que viviam na Alta ou na Baixa economicamente depauperados: barbeiros, merceeiros, profissões dependentes do estudante. Recordo-me que as criadas viviam num estado de fome permanente nas férias grandes e começavam a comer quando os estudantes regressavam. (...) Lembro-me do estatuto de estudante que era, apesar de tudo, compatível com uma certa compreensão humana da situação dessa gente. Esta visão sentimental do que eram as desigualdades sociais motivou uma certa transformação em mim. A visão poético-estudantil em que eu me considerava um herói de capa e batina, um cavaleiro andante, desapareceu ou foi desaparecendo com o tempo e à medida que fui vivendo numa situação económica extremamente difícil com os meus dois filhos no Beco da Carqueja».

São editados os seus primeiros trabalhos discográficos – dois discos de 78 rotações com fados de Coimbra, com chancela da Alvorada, e gravados na delegação regional de Coimbra da Emissora Nacional. Cada disco inclui dois fados, sendo "Fado das Águias", com letra e música de José Afonso, a sua primeira composição gravada.

De 1953 a 1955, cumpre o serviço militar obrigatório em Mafra. Recebe guia de marcha para Macau, mas não chega a ser mobilizado por motivos de saúde, vindo a ser colocado num quartel de Coimbra. Da sua vida militar recorda: «Eu fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar».

No ano lectivo 1955/56, e para assegurar o sustento da família, e embora não tendo ainda concluído o curso, começa a dar aulas num colégio privado em Mangualde. Inicia-se o processo de separação e posterior divórcio de Amália (a 1 de Junho de 1963). José Afonso manterá uma névoa de silêncio em redor desta sua experiência conjugal.

Em 1956 é editado, pela Alvorada, o seu primeiro EP intitulado "Fados de Coimbra", em que tem como acompanhadores António Portugal e Jorge Godinho (guitarras) e Manuel Pepe e Levy Baptista (violas). Em 1956/57 é professor em Aljustrel, seguindo-se nos anos subsequentes Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro. José Afonso fala assim da sua experiência enquanto docente: «A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais».
Por dificuldades económicas, em 1958 envia os dois filhos (José Manuel e Helena) para Moçambique, para junto dos avós. Neste ano fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Durante um mês integra a digressão da Tuna Académica em Angola, mas não canta apenas fados de Coimbra. «O Zeca era um dos vocalistas do Conjunto Ligeiro da Tuna e cantava canções como "Adeus Mouraria", o seu maior sucesso, acompanhado ao piano, baixo, bateria, acordeão e guitarra eléctrica. Actuávamos vestidos com umas largas blusas de cetim, cada uma de sua cor, imitando a orquestra de mambos de Perez Prado, o máximo da altura. Acabada esta cena de 'show-biz', vestíamos rapidamente a capa e batina e íamos para a serenata, mutantes do sol para a lua» conta José Niza. Na viagem de regresso, no Paquete Pátria, convive com a poetisa Natália Correia, que mais tarde lhe dedicará um poema (transcrito em epígrafe). «Sob o luar quente dos trópicos, íamos à noite para a ré do navio, com violas, vinho e poesia: o Zeca cantava; e a Natália – cabelos ao vento, deusa grega, nessa altura e sem exagero, uma das mulheres mais belas do planeta – dizia poemas» recorda José Niza.

Em 1959 começa a frequentar colectividades e a cantar regularmente em meios populares. Em 1960, e depois de quatro anos sem gravar, é editado o EP intitulado "Balada do Outono", com chancela da Rapsódia, disco que inaugura o movimento da balada coimbrã e um marco na História da música portuguesa. A propósito da "Balada do Outono" (Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar) escreve Manuel Alegre: «A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de mudança». Faz nova digressão a Angola, com o Orfeão Académico, durante a qual toma verdadeira consciência da realidade colonial. José Niza recorda: «Fomos encontrar uma Angola diferente. Tinha-se dado a independência do Congo Belga e todo o território estava cheio de retornados belgas. A PIDE tinha-se instalado em Luanda e noutras cidades. E sentiam-se no ar, nas entrelinhas das conversas, nos olhares, os sinais de que alguma coisa iria acontecer». No ano seguinte rebentava a Guerra Colonial.

José Afonso segue atentamente a crise estudantil de 1962. Em Faro convive com Luiza Neto Jorge, António Barahona, António Ramos Rosa e Manuel Pité, e namora com Zélia, natural da Fuzeta, que será a sua segunda mulher e com quem terá mais dois filhos, Joana e Pedro. É José Afonso quem nos diz: «O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores». Para o álbum colectivo "Coimbra Orfeon of Portugal", editado pela Monitor (dos Estados Unidos), José Afonso grava dois temas – "Minha Mãe" e "Balada Aleixo" – em que rompe definitivamente com o acompanhamento das guitarras. Nestas duas baladas é acompanhado exclusivamente à viola por José Niza e Durval Moreirinhas. Realiza digressões pela Suíça, Alemanha e Suécia, integrado num grupo de fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta Esmeralda Amoedo. Em 1963, conclui a licenciatura na Faculdade de Letras de Coimbra com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: "Implicações Substancialistas na Filosofia Sartriana". Em 1962 e 1963 são editados dois EP intitulados "Baladas de Coimbra", com Rui Pato à viola, dos quais fazem parte as belíssimas "Menino d'Oiro", "No Lago do Breu", "Canção do Vai... e Vem" e "Menino do Bairro Negro", esta última inspirada nos meios sociais miseráveis do Porto, no Bairro do Barredo. A balada "Os Vampiros", incluída no EP de 1963, tornar-se-á, juntamente com a "Trova do Vento que Passa" (gravada no mesmo ano por Adriano Correia de Oliveira), um dos símbolos maiores da resistência antifascista até ao advento da liberdade.

Em Maio de 1964, José Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção "Grândola, Vila Morena", que viria a ser no dia 25 de Abril de 1974 a senha do Movimento das Forças Armadas (MFA) para o derrube do regime ditatorial. É editado o EP "Cantares de José Afonso", o único para a Valentim de Carvalho, que inclui "Coro dos Caídos", "Canção do Mar", "Maria" (dedicada a Zélia) e "Ó Vila de Olhão", com Rui Pato à viola, excepto na última que é acompanhada pelo conjunto de guitarras de Jorge Fontes. As três primeiras viriam a ser depois incluídas num álbum colectivo com Carlos Paredes e Luiz Goes (reeditado em CD pela EMI-VC em 1992). Ainda em 1964, muda-se com Zélia para Lourenço Marques, onde reencontra os seus filhos e os pais. Durante dois anos dá aulas na cidade da Beira. Em Moçambique desenvolve intensa actividade anticolonialista e relaciona-se, entre outros, com Malangatana e António Quadros (João Pedro Grabato Dias), que vem a contribuir com algumas letras para o repertório do cantor. Aí compõe a música para a peça de Bertolt Brecht "A Excepção e a Regra", traduzida e encenada por Luiz Francisco Rebello, cujos temas virá posteriormente a gravar.

Em 1967, esgotado pelo sistema colonial, regressa a Lisboa, deixando o filho mais velho, José Manuel, confiado aos avós. José Afonso recorda assim a sua última fase africana: «Se houve alguma coisa em África que me marcou definitivamente foi a realidade colonial. Quando eu parti ia preparado para enfrentá-la: sabia quais os seus contornos e o papel que me cabia como professor, quais os alunos que ia ensinar. Sabia também que ia ser um veículo de transmissão ideológica de uma classe dominante. (...) Fiquei terrivelmente ligado àquela realidade física que é a África, aquilo tem de facto qualquer coisa de estranho, uma força muito grande que nos seduz. O meu baptismo político começa em África. Estava a dois passos do oprimido».

É colocado como professor em Setúbal, e a par das funções lectivas começa a aceitar convites para cantar em colectividades da Margem Sul. Fica sob a mira da PIDE que o passa a chamar com relativa assiduidade para prestar declarações no posto de Setúbal. É editado, pela Discoteca Santo António, através da etiqueta Ofir, o LP "Baladas e Canções", gravado nos Estúdios da RTP em Vila Nova de Gaia (reeditado em CD pela EMI-VC em 1997). É o primeiro álbum a sério de José Afonso, com 12 temas, entre os quais "Canção Longe", "Os Bravos", "Balada Aleixo", "Balada do Outono" (em versão instrumental), "Na Fonte Está Lianor" (com poema de Luís de Camões), "Minha Mãe", "Altos Castelos", "O Pastor de Bensafrim" e "A Ronda dos Paisanos". Sofre uma grave depressão que o leva a ser internado durante 20 dias na Casa de Saúde de Belas. Quando sai da clínica, recebe a notícia de que tinha sido demitido do ensino oficial. É publicado o livro "Cantares de José Afonso", pela Nova Realidade. O PCP convida-o a aderir ao partido, mas José Afonso recusa invocando a sua condição de classe. «Nunca fui um indivíduo com certezas dogmáticas acerca de grupos ou partidos preferenciais. Comecei por me relacionar, sobretudo na Margem Sul, a associações de estudantes fortemente politizadas, por um lado, e a determinadas organizações políticas, como por exemplo os Católicos Progressistas, por outro. Achava que todos aqueles grupos eram necessários para formar um movimento que conduzisse ao derrube do poder. Qual seria depois o partido ou organização que surgiria após o derrube do poder, não sabia.»

Mais uma vez confrontado com necessidades de subsistência, é obrigado a dar explicações e a encarar mais seriamente a carreira musical, designadamente através da gravação de discos. Cientes da situação, Rui Pato e António Portugal contactam várias editoras, incluindo aquelas para as quais Zeca já gravara antes, mas todas lhes fecham as portas, com medo da PIDE. Então, em desespero de causa, vão ao Porto falar com Arnaldo Trindade, da Orfeu, para a qual Adriano Correia de Oliveira, já gravava há anos. A proposta era nem mais nem menos que a gravação de "Cantares do Andarilho". Arnaldo Trindade aceita a ideia, assume os riscos e propõe um contrato sui generis: José Afonso passaria a receber, mensalmente, 15 mil escudos (quantia nada desprezível na altura) e em troca comprometia-se a gravar um álbum por ano. Foi através deste vínculo à Orfeu, para a qual gravou mais de 70 por cento da sua obra, que Zeca alcançou a estabilidade económica que nunca tivera, e de que tanto precisava em face dos seus encargos familiares. No Natal de 1968, sai o sugestivamente intitulado "Cantares do Andarilho", com Rui Pato à viola, sem dúvida alguma, um dos melhores álbuns da sua discografia. Deste disco fazem parte, entre outros, temas como "Natal dos Simples", "Balada do Sino", "Canção de Embalar", "Endechas a Bárbara Escrava (com poema de Luís de Camões), "Chamaram-me Cigano" e "Vejam Bem".

Em 1969, a Primavera marcelista abre perspectivas de organização ao movimento sindical. José Afonso participa activamente neste movimento, assim como nas acções dos estudantes em Coimbra. Em 1969 , participa no 1º Encontro da "Chanson Portugaise de Combat", em Paris. Edita o álbum "Contos Velhos, Rumos Novos" e o single "Menina dos Olhos Tristes" que contém a canção popular "Canta Camarada". Em "Contos Velhos, Rumos Novos", e fazendo jus ao título, continua e aprofunda a exploração do repertório da tradição popular ("Oh! Que Calma Vai Caindo", "S. Macaio", "Deus Te Salve, Rosa", "Lá Vai Jeremias"), ao mesmo tempo que põe em música uma plêiade de escritores eruditos: Airas Nunes ("Bailia"), F. Miguel Bernardes ("Qualquer Dia"), Lope de Vega ("No Vale de Fuenteovejuna"), Luís Andrade Pignatelli ("Era de Noite e Levaram") e Ary dos Santos ("A Cidade"). Pela primeira vez num disco de José Afonso, aparecem outros instrumentos que não a viola ou a guitarra, como a trompa, as marimbas, o cavaquinho e a harmónica. Recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco, distinção que repete em 1970 e 1971.

Em 1970 é editado o álbum "Traz Outro Amigo Também", gravado em Londres, nos estúdios da Pye Records, o primeiro sem Rui Pato, impedido pela PIDE de viajar, por causa do seu envolvimento na crise académica de 1969. Será substituído por Carlos Correia (Bóris), antigo músico de rock, dos Álamos e do Conjunto Universitário Hi-Fi. Além do tema-título, o alinhamento inclui temas como "Maria Faia", "Canto Moço", "Epígrafe para a Arte de Furtar" (com poema de Jorge de Sena), "Moda do Entrudo", "Canção do Desterro" e "Verdes São os Campos" (com poema de Luís de Camões). Na capital britânica, José Afonso conhece os brasileiros Gilberto Gil e Caetano Veloso, que aí se encontravam exilados por motivos políticos. Em Março de 1970, a Casa de Imprensa atribui a José Afonso, por unanimidade, o Prémio de Honra pela «alta qualidade da sua obra artística como autor e intérprete e pela decisiva influência que exerce em todo o movimento de renovação da música ligeira portuguesa». Participa em Cuba num Festival Internacional de Música Popular.

No Natal de 1971, é lançado o LP "Cantigas do Maio", com direcção musical de José Mário Branco, gravado em Herouville (perto de Paris), no Strawberry Studio, um dos mais caros e afamados da Europa. O álbum conta ainda com a participação de Carlos Correia (Bóris), Francisco Fanhais e vários músicos franceses, entre os quais, o percussionista Michel Delaporte. Além de "Grândola, Vila Morena", o disco inclui temas tão emblemáticos como "Cantigas do Maio", "Cantar Alentejano" (em homenagem a Catarina Eufémia, assassinada pela GNR), "Maio, Maduro Maio" e "Mulher da Erva". É geralmente considerado o melhor álbum de José Afonso e representa o momento de viragem para formas de acompanhamento instrumental mais enriquecidas e elaboradas. A editora Nova Realidade publica o livro "Cantar de Novo".

No ano de 1972 sai o LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em Madrid, nos Estúdios Cellada, sob a direcção musical de José Niza e com a participação de Benedicto, um cantor galego amigo de Zeca, e com o apoio dos Aguaviva, de Manolo Diaz. Deste álbum fazem parte, entre outros, os temas "A Morte Saiu à Rua" (em homenagem ao pintor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE numa rua de Alcântara), "Ó Minha Amora Madura", "No Comboio Descendente" (com poema de Fernando Pessoa) e o belíssimo "Fui à Beira do Mar" (vide letra abaixo). Em 1973, José Afonso continua a sua "peregrinação", cantando um pouco por todo o lado. Muitas sessões foram proibidas pela PIDE/DGS. Em Abril é preso e fica 20 dias em Caxias até finais de Maio. Na prisão política, escreve o poema "Era Um Redondo Vocábulo", um dos temas mais belos do álbum seguinte, "Venham Mais Cinco", gravado em Paris, no Studio Aquarium, e que conta de novo com a direcção musical de José Mário Branco e com a participação de uma miríade de músicos estrangeiros, sendo de destacar Michel Delaporte nas percussões. O tema-título tem a participação vocal de Janine de Waleyne, solista dos Swingle Singers, o melhor grupo vocal de jazz cantado da altura, na opinião de José Niza. Além do conhecido tema que dá nome ao álbum, merecem ainda destaque três outros temas, autênticas pérolas do repertório de José Afonso: o citado "Era Um Redondo Vocábulo", "Adeus ó Serra da Lapa" e "Que Amor Não me Engana".

A 29 de Março de 1974, o Coliseu de Lisboa enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com "Grândola, Vila Morena". Militares do MFA estão entre a assistência e escolhem "Grândola" para senha do golpe militar que está em congeminação e que se concretizará, daí a menos de um mês, no 25 de Abril. No dia daquele espectáculo, a censura avisara a Casa de Imprensa, organizadora do evento, de que eram proibidas as representações dos temas "Venham Mais Cinco", "Menina dos Olhos Tristes", "A Morte Saiu à Rua" e "Gastão Era Perfeito". Curiosamente, a "Grândola, Vila Morena" era autorizada. É editado o álbum "Coro dos Tribunais", gravado em Londres, novamente na Pye Records, com arranjos e direcção musical, pela primeira vez, de Fausto Bordalo Dias e com a participação musical do próprio Fausto e ainda de Michel Delaporte, Vitorino, Carlos Alberto Moniz, Yório Gonçalves, Adriano Correia de Oliveira e José Niza. São incluídas as canções brechtianas compostas em Moçambique no período entre 1964 e 1967, "Coro dos Tribunais" e "Eu Marchava de Dia e de Noite (Canta o Comerciante)". Em 1974/75 Zeca envolve-se directamente nos movimentos populares e no PREC (Processo Revolucionário Em Curso), mas faz questão de não se filiar em qualquer dos sectarismos partidários existentes. Canta no dia 11 de Março de 1975 no RALIS para os soldados e estabelece uma colaboração estreita com a LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária), através do seu amigo Camilo Mortágua, dirigente da organização. A LUAR edita o single "Viva o Poder Popular", com "Foi na Cidade do Sado" no lado B. Em Itália, as organizações revolucionárias Lotta Continua, Il Manifesto e Vanguardia Operaria editam o álbum "República", gravado em Roma nos dias 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos estúdios das Santini Edizioni. As receitas do disco destinavam-se a apoiar a Comissão de Trabalhadores do jornal "República" ou, caso o jornal fosse extinto, como foi, o Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre. Desconhecido em Portugal, este álbum inclui "Para Não Dizer Que Não Falei de Flores" (versão de Francisco Fanhais da célebre canção de Geraldo Vandré), "Se os Teus Olhos se Vendessem", "Foi no Sábado Passado", "Canta Camarada", "Eu Hei-de Ir Colher Macela", "O Pão Que Sobra à Riqueza", "Os Vampiros", "Senhora do Almortão", "Letra para Um Hino" e "Ladainha do Arcebispo". Além de Francisco Fanhais, este disco teve o contributo de diversos músicos italianos.

Em 1976, Zeca apoia a candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, estratega do 25 de Abril e ex-comandante do COPCON (Comando Operacional do Continente), apoio que reedita em 1980. Ainda em 1976, publica o álbum "Com as Minhas Tamanquinhas", com a surpreendente participação de Quim Barreiros. É, na opinião de José Niza, «um disco de combate e de denúncia, um grito de alma, um murro na mesa, sincero e exaltado, talvez exagerado se ouvido e lido ao fim de 30 anos, isto é, hoje». É a "ressaca" do PREC. O próprio José Afonso dirá mais tarde: «Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta». E acrescenta: «Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for». O álbum "Enquanto Há Força", editado em 1978, com o apoio de Fausto Bordalo Dias na direcção musical, representa mais um exemplo da fase cronista e panfletária do cantor, ligada às suas preocupações anti-colonialistas e anti-imperialistas, a que não escapa uma crítica mordaz à Igreja Católica (no tema "Arcebispíada"). Conta com a participação de excelentes músicos e cantores, como Guilherme Inês, Carlos Zíngaro, Pedro Caldeira Cabral, Rão Kyao, Luís Duarte, Adriano Correia de Oliveira e Sérgio Godinho. Em 1979 é editado o álbum "Fura Fura", com a colaboração musical de Júlio Pereira e dos Trovante. Dos doze temas do alinhamento, oito são de música para teatro, compostos para as peças "Zé do Telhado" e "Guerras de Alecrim e Manjerona", levadas à cena na Barraca e na Comuna, respectivamente.

Actua em Bruxelas no Festival da Contra-Eurovisão. Em 1981, e após dois anos sem discos, reconcilia-se com a canção de Coimbra e com a guitarra ao gravar o álbum "Fados de Coimbra e Outras Canções", no qual reinterpreta três temas já anteriormente gravados: "Senhora do Almortão", "Vira de Coimbra" e "Balada do Outono". Trata-se da mais bela versão do fado de Coimbra, interpretada por Zeca Afonso em homenagem a seu pai e a Edmundo Bettencourt, dedicatários do álbum. Actua em Paris, no Théatre de la Ville. Em 1982 começam a conhecer-se os primeiros sintomas de esclerose lateral amiotrófica, doença que se caracteriza por uma progressiva atrofia muscular de que resulta geralmente a morte, por asfixia. Actua em Bruges, Bélgica, no Festival de Printemps.

Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu dos Recreios, com José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto Bordalo Dias, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé. É publicado o duplo álbum "Ao Vivo no Coliseu".

No Natal desse ano, sai o álbum "Como Se Fora Seu Filho", o seu testamento estético-político. Neste trabalho colaboram Júlio Pereira, Janita Salomé, Fausto Bordalo Dias e José Mário Branco. Algumas das canções do alinhamento foram escritas para a peça "Fernão Mentes?" do grupo de teatro A Barraca. É publicado o livro "Textos e Canções", com a chancela da Assírio e Alvim, que inclui muitos poemas que José Afonso não chegou a musicar. Contra a sua vontade, é publicado pelo Foto Sonoro um maxi-single, "Zeca em Coimbra", com um espectáculo dado pelo cantor no Parque de Santa Cruz, na Lusa Atenas, a 27 de Maio, em que também participaram António Bernardino ("Tenho Barcos, Tenho Remos"), Luís Marinho ("Traz Outro Amigo Também") e ainda António Portugal e António Brojo (guitarras) e Aurélio Reis, Luís Filipe e Rui Pato (violas). A cidade de Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado Zeca, volta sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Fernando Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso. O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário. Mário Soares tentará de novo condecorá-lo, a título póstumo, em 1994, com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusa, alegando que se José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua morte que seria condecorado.

Em 1983 José Afonso é reintegrado no ensino oficial (fora expulso em 1968), tendo sido destacado para dar aulas de História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. Em 1985 é editado o último álbum, "Galinhas do Mato", com arranjos e direcção musical de Júlio Pereira e José Mário Branco. Zeca já não consegue cantar todos os temas, sendo substituído por Luís Represas ("Agora"), Helena Vieira ("Tu Gitana"), Janita Salomé ("Moda do Entrudo", "Tarkovsky" e "Alegria da Criação"), José Mário Branco ("Década de Salomé", em dueto com Zeca), Né Ladeiras ("Benditos") e Catarina e Marta Salomé ("Galinhas do Mato"). Em 1986 apoia a candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintassilgo, católica progressista.

José Afonso vem a falecer no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, com 57 anos de idade. O funeral realiza-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola Secundária de S. Julião para o Cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília e Francisco Fanhais.

A 18 de Novembro é criada, por iniciativa de Alípio de Freitas (homenageado no tema homónimo do álbum "Com as Minhas Tamanquinhas"), a Associação José Afonso com o objectivo de ajudar a realizar as ideias do compositor e intérprete no campo das Artes. No ano seguinte a Câmara Municipal da Amadora institui o Prémio José Afonso destinado a galardoar um álbum inédito de música portuguesa, cujos temas tenham como referência a cultura e História portuguesas, tal como a obra do patrono. Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Né ladeiras, Amélia Muge, João Afonso, Vai de Roda, Gaiteiros de Lisboa, Dulce Pontes, Vozes do Sul/Janita Salomé, Jorge Palma, Carlos do Carmo, Filipa Pais e José Medeiros, contam-se entre os já contemplados.

Duas semanas depois da morte do cantor, a Transmédia edita "Agora e Sempre", o primeiro triplo álbum da história discográfica portuguesa. A edição é constituída pelos álbuns "Como Se Fora Seu Filho" (1983), "Galinhas do Mato" (1985) e "Ao Vivo no Coliseu" (1983), este com um alinhamento diferente. Nesse mesmo ano, a Movieplay lança em CD os 11 álbuns gravados para a Orfeu (até 1981), tendo também sido editado pela Edisco o CD "Os Vampiros", com as baladas dos três EP da Rapsódia (1960-63), tais como "Os Vampiros", "Menino d'Oiro", "Canção do Vai... e Vem", "Menino do Bairro Negro", "No Largo do Breu" e "Balada do Outono". Em 1996, a Movieplay reúne finalmente em CD os fados de Coimbra dos três primeiros discos (1953-56) e ainda os temas "Menina dos Olhos Tristes" e "Canta Camarada", do single editado pela Orfeu em 1969. Em 1997, no décimo aniversário da morte de José Afonso, a EMI-VC lança em CD o álbum "Baladas e Canções", originalmente editado pela Ofir em 1964.

José Afonso, como pioneiro de uma estética musical alternativa ao "nacional cançonetismo" (como lhe chamou João Paulo Guerra) e pelo contributo inovador que deu na redescoberta e valorização da música de raiz tradicional, será sempre recordado como um dos nomes maiores da História da música portuguesa. Testemunham-no as homenagens e tributos de quem sido alvo ao longo dos anos, com novas versões de temas seus, sendo de destacar os projectos "Ousadias" (1986 - Naná Sousa Dias), "Filhos da Madrugada Cantam José Afonso" (1994 - Madredeus, Frei Fado d'El-Rei, Brigada Victor Jara, Opus Ensemble, Diva, Delfins, Sétima Legião, Resistência, UHF, Tubarões, etc.), "Maio, Maduro Maio" (1995 - Amélia Muge, José Mário Branco e João Afonso, gravado no S. Luiz em 1994), "Utopia" (2004 – Vitorino e Janita Salomé, gravado no CCB em 1998), "A Jazzar no Zeca" (2004 - Zé Eduardo Unit) e "Que Viva o Zeca" (2007 - Ervas de Cheiro).
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Sílvia Maria Vieira Peixoto Araújo


Sílvia Maria Vieira Peixoto Araújo (Mariana, 16 de setembro de 1951 — São Paulo, 25 de junho de 2008), mais conhecida como Sylvinha Araújo, foi uma cantora e compositora brasileira.
Sylvinha começou sua carreira na década de 1960, lançada por Chacrinha.[1] Na época, apresentou o programa O Bom, com Eduardo Araújo, com quem se casaria (em 1969) e teria dois filhos.

Em 1967 gravou seu primeiro disco, o compacto Feitiço de broto.[2] Entre suas composições de maior sucesso, está "Minha primeira desilusão".

O crítico e produtor musical Nelson Motta chegou a chamá-la de Janis Joplin brasileira, após a versão soul que imprimiu à canção "Paraíba", de Luiz Gonzaga.[1] Chegou a vender mais de um milhão de discos na carreira.[3] No final da década de 1970, passou gravar jingles publicitários, e gravou mais de 2 mil.[1]

Entre os anos 1970 e 80 ela foi jurada de calouros no programa dominical de Silvio Santos.[3] Afastada da publicidade, passou a se dedicar à gravadora Number One (sua e do marido). Em 2001, lançou o álbum Suave É a Noite. Em 2007, lançou um DVD comemorativo dos 40 anos da Jovem Guarda, e vinha trabalhando na divulgação desse trabalho.[4]

Quando morreu, estava internada havia 21 dias no Hospital 9 de Julho, em decorrência de complicações do câncer de mama contra o qual lutou 12 anos. Foi enterrada em Itapecerica da Serra.
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Zequinha de Abreu


José Gomes de Abreu nasceu em 19.9.1880, na cidade de Santa Rita do Passa Quatro, SP, e faleceu em 22.01.1935, na capital paulista, com 54 anos de idade.

Era o primeiro dos 8 filhos do boticário José Alacrino Ramiro de Abreu e Justina Gomes Litão. Com 5 anos, já surpreendia por sua vocação musical. Com 10 anos, tocava requinta, flauta e clarineta na banda e ensaiava suas primeiras composições.

Aprendeu as primeiras letras em Santa Rita. Continuou seus estudos no Colégio São Luís de Itu, de padres, de 1891 a 1893, e no Seminário Episcopal de São Paulo, de 1894 a 1896. Teve aulas de música bons professores. A mãe o queria padre e, o pai, médico. Zequinha só queria ser músico e voltou para sua cidade.

Com 17 anos, funda sua primeira orquestra e dá início a uma atividade musical de mais de 20 anos: saraus, bailes, aniversários, casamentos, serestas e acompanhamento dos filmes-mudos. Era considerada uma das melhores de toda a região. Já se tinha casado, em 1899, com apenas 18 anos, com Durvalina Pires Brasil, de 14 anos, que resida no Distrito de Santa Cruz da Estrela, atual Jacerandi, próximo a Santa Rita. Aí o casal viveu alguns meses, com uma farmácia e uma classe de ensino primário. De volta à cidade, a par da orquestra e de conjunto musical, Zequinha haveria de acumular os cargos de secretário da Câmara Municipal e de escrevente da Coletoria Estadual. Era necessário se desdobrar, porque a família não parava de crescer. Foram 8 filhos, todos começados com D: Durval, Dermeval, Dinorah, Doríval, Diva e Dirce.

Muda-se para a Capital, em setembro de 1920, logo depois do falecimento do pai. Em São Paulo, seu ritmo profissional é o mesmo: clubes, cabarés, "dancings", casas de família, festas e estabelecimentos comerciais, como o Bar Viaduto e a Confeitaria Seleta, Seu piano e seus conjuntos eram sempre muito requisitados e suas músicas cada vez mais aplaudidas. Vinha compondo desde há muito, até editando particularmente algumas delas.

Trabalhava também na Casa Beethoven. Mostrava no piano como soavam os últimos lançamentos musicais. Atraía, com seu talento de músico e compositor, fregueses para as partituras e fazia para, para ouvi-lo, os transeuntes da Rua Direita. Foi na Casa Beethoven que Vicente Vitale, que iniciava com seus irmãos uma editora musical, travou conhecimento com Zequinha. Assim, em 1924, Vicente Vitale, lançava, sob nº 12 do catálogo de sua nascente editora, a valsa Branca de Zequinha, um sucesso extraordinário. "Devo a Zequinha, Exclusivamente, o meu grande início como editor" reconhecia Vicente, que depois editou sua música mais conhecida "Tico Tico no Fubá".

Outros sucessos foram se seguindo e Vicente não teve dúvidas em propor-lhe um contrato de exclusividade, com a obrigação de entregar à editora uma música nova a cada mês, em troca de um ordenado compensador. Zequinha talvez tenha sido o único compositor de sua época a trabalhar mensal sob contrato de ganho mensal fixo. Sua ligação com os Vitale perduraria enquanto viveu. Vicente Vitale viria a falecer, em 19.9.1980, com 77 anos, exatamente no dia em que se comemorava o centenário do compositor e amigo Zequinha.

Incansável como sempre foi, ainda dava aulas de piano, geralmente para as jovens de família e aproveitava para vender as partituras de suas músicas nas casa que freqüentava. Era, contudo, despossuído de ambição e pródigo com os amigos necessitados. Torcia pelo glorioso C.A. Paulistano e, na sua boêmia, fazia-se acompanhar dos filhos Durval e Dermeval.

Improvisava ao piano canções sobre canções durante horas, com a cervejinha do lado. "Era um simples e um bom. Modesto até o extremo, nunca tivera para ninguém uma palavra depreciativa. Falava pouco, sorria bastante. Escrevia música tão depressa como qualquer pessoa que sabia escrever ligeiro"- rememorou o piauiense Hermes Vieira, que usava o pseudônimo de Naro Demóstenes, seu amigo e letrista.
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Alfred Adler


Nascido em 7 de fevereiro de 1870, em Penzing, na Áustria, falecido em 28 de maio de 1937, em Aberdeen, na Escócia, Alfred Adler foi um proeminente psiquiatra, criador da corrente psicológica conhecida como "Psicologia Individual". Introduziu conceitos como "sentimento de inferioridade" ou, mais popularmente, "complexo de inferioridade". Desenvolveu uma psicoterapia flexível, de apoio no sentido de conduzir à maturidade emocional, bom senso e integração social aqueles emocionalmente deficientes em razão de sentimentos de inferioridade

Em toda sua vida sua clara consciência dos problemas sociais foi sua principal motivação para o trabalho. Formou em medicina na Escola de Medicina da Universidade de Viena em 1895. Desde seus primeiros anos como médico deu ênfase à consideração do paciente em relação à totalidade do meio, através de uma abordagem humanista, holística, orgânica dos problemas humanos.

Por volta de 1900 Adler começou a investigar a psicopatologia no campo da medicina e em 1902 tornou-se um associado muito próximo a seu colega vienense Sigmund Freud. Conhecendo a reação favorável de Adler às suas idéias expostas em seu livro sobre a interpretação dos sonhos, Freud convidou-o a juntar-se ao grupo que se reunia semanalmente em sua casa para discutir psicopatologia. Porém, gradualmente, as diferenças entre os dois tornaram-se irreconciliáveis, principalmente depois que Adler publicou o seu Studie uber Minderwertigkeit von Organen (Estudo sobre a inferioridade orgânica"), em 1907, no qual sustenta que as pessoas tentam compensar psicologicamente seus sentimentos de inferioridade devidos a suas deficiências físicas Um dos principais postulados de sua doutrina era a necessidade de ver o homem como um todo, uma unidade funcional, reagindo ao seu meio tanto quanto aos seus próprios dotes físicos, em lugar de vê-lo como um somatório de instintos, desejos e outras manifestações psicológicas.

A compensação insuficiente dá como resultado a neurose, assim designada qualquer manifestação de desordem funcional da mente ou das emoções. Em 1908 ele argumentava que o instinto de agressão é primário e que os demais instintos estava subordinados a ele. Adler nunca aceitou a teoria original de Freud do trauma sexual, segundo a qual os conflitos sexuais da infância seriam a causa das doenças mentais, e chegou mais tarde a reconhecer na sexualidade apenas um papel simbólico na busca do homem em superar sentimentos de inadequação. Ele se opôs à generalização na interpretação dos sonhos como expressão unicamente de satisfação sexual.

Adler abandonou o círculo de Freud em 1911, com um grupo de oito colegas, para formar seu próprio círculo de debates e desenvolver suas idéias, delineadas no que chamou "Psicologia individual", primeiro no Uber den nervösen Charakter (1912 - "Sobre o carater neurótico"). O sistema foi aperfeiçoado nas edições posteriores desse trabalho e em outras obras, como Understanding Human Nature, de 1918, publicado depois em alemão Menschenkenntnis, em 1927, com suas conferências feitas no Instituto Vienense para Educação de Adultos. Após esse rompimento Freud e Adler nunca mais se encontraram.

A psicologia individual de Adler mantém que o principal motivo para o comportamento humano é uma busca pela perfeição, mas que pode tornar-se uma busca por superioridade como compensação para sentimentos de inferioridade. A opinião do indivíduo sobre si próprio e sobre o mundo influencia todo o seu processo psicológico. Porque todos os problemas importantes da sua vida são problemas de natureza social, ele precisa ser visto em seu contexto social. Sua socialização pode ser obtida através do desenvolvimento da sua inclinação social instintiva.

A estrutura da personalidade de cada indivíduo, incluindo seus ideais e os meios que divisa para alcançá-los, constituem seu "papel de vida" (o que também é chamado "script"), o qual jaz, em parte, no seu subconsciente. Coerentemente, a este papel o indivíduo subordina suas emoções e desejos específicos. O papel de vida forma-se na primeira infância, sob influência de fatores como ordem de nascimento, inferioridade ou superioridade física, e descaso ou superproteção dos pais.

A saúde mental é caracterizada pela razão, interesse social, e auto-transcendência, e as desordens mentais por sentimentos de inferioridade e preocupação egocêntrica com segurança e superioridade ou poder sobre os outros. A psicoterapia, na qual o médico e o paciente discutem os problemas como iguais haverá de encorajar o relacionamento humano consistente e interesse social reforçado. A função do psicanalista, em conseqüência, seria descobrir e racionalizar esses sentimentos, para terminar com o desejo de poder compensatório e neurótico.

Em 1921 Adler estabeleceu a primeira clínica para orientação educacional em Viena, e logo abrindo e mantendo mais outras 30, sob sua direção. Estas eram visitadas por profissionais estrangeiros, o que estimulou a abertura de clínicas similares em outros países

Considerando a educação das crianças coimo essencial para perpetuar os valores sociais, ele recomendava sem descanso a orientação educacional, e em suas clinicas as crianças, os pais e os professores eram aconselhados à vista de observadores interessados em seus procedimentos.

Adler viajou aos Estados Unidos pela primeira vez em 1926 e tornou-se professor visitante na Universidade de Columbia em 1927. Foi nomeado professor visitante na Escola de medicina de Long Island, em Nova York, em 1932. Em 1934 suas várias clínicas em Viena foram fechadas pelos nazistas. Muitos de seus escritos posteriores, como What Life Should Mean to You, ("O sentido de viver") de 1931, foram de divulgação popular de sua teoria. Assim também The Individual Psychology of Alfred Adler, publicado em 1956 e Superiority and Social Interest, de 1964.

Durante este e os anos seguintes ele permanecia em Viena apenas nas férias de verão, entre maio e setembro, retornando aos Estados Unidos para o período letivo. Em 1935 trouxe sua família para a América.

Ele estava na Escócia, para uma série de conferências na Universidade de Aberdeen, quando sofreu um infarto do coração na rua, vindo a falecer em poucos minutos.
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Abul Walid Muhammad Ibn Achmed, Ibn Mohammad Ibn Ruschd


Abul Walid Muhammad Ibn Achmed, Ibn Mohammad Ibn Ruschd, filósofo, astrônomo jurista árabe, nasceu em Córdoba, em 1125, e morreu no Marrocos, em 1198. Averróes, como é conhecido no ocidente, recebeu a educação alcorânica tradicional em sua cidade natal, onde seu pai e seu avô foram cadi (juiz civil), e desempenhou um papel importante na história política da Andalusia. Dedicou-se à jurisprudência, medicina e matemática, assim como à filosofia e à teologia. Com a idade de 27 anos, Averróes foi convidado pelo governante almoada em Marrakesh para ajudá-lo a estabelecer instutuições educacionais islâmicas. Ibn Tufayl, o grande filósofo muçulmano da corte almoada, apresentou-o ao sultão Abu Yaqub, um príncipe interessado em questões filosóficas e conhecedor de Aristóteles e Platão.

Averróes foi indicado cadi em Sevilha com a idade de 44 anos. Naquele ano ele traduziu e resumiu o livro de Aristóteles, "De Anima", que depois foi traduzido para o latim. Dois anos mais tarde, ele foi transferido para Córdoba, sua cidade natal, onde passou dez anos como juiz naquela cidade. Durante esses dez anos, Averróes escreveu comentários sobre a obra de Aristóteles, inclusive a "Metafísica". Mais tarde foi chamado de volta a Marrakesh para trabalhar como médico do califa.

Durante os governos de Abu Yaqub Yusuf e de seu filho, Yaqub al-Mansur, ele gozou de extraordinária simpatia da corte e execeu diversos cargos importantes em Marrocos, Sevilha e Córdoba. Mais tarde, caiu em desgraça e foi banido juntamente com outros sábios. Um pouco antes de sua morte, o Edito contra os filósofos foi revogado, mas muitos de seus trabalhos sobre lógica e metafísica haviam sido destruídos pelo fogo.

Segundo José Silveira da Costa, em Averróis, O Aristotelismo Radical, "a opinião predominante na história do pensamento islâmico ocidental apresenta Averróes como um grande sábio e filósofo, consagrado à reflexão, ao estudo e à investigação racional, preocupado com a observação direta dos fenômenos naturais e, igualmente, como um muçulmano fiel e um grande trabalhador."

Seus "Comentários", sobre Aristóteles, sua obra filosófica e seus tratados sobre teologia chegaram até nós através de traduçãos latinas e hebraicas. Os "Comentários", que lhe deram o título de "Crítico", são de três espécies: uma pequena paráfrase ou análise, uma exposição breve do texto e uma exposição mais ampla, e que são conhecidas como Comentários Menores, Médios e Maiores, respectivamente. Nenhum deles é de importância para a crítica textual de Aristóteles, uma vez que Averróes, não sendo versado em grego ou ciríaco, baseou toda a sua exposição numa tradução árabe imperfeita da versão ciríaca do texto grego. No entanto, foram de grande importância na determinação da interpretação científica e filosófica de Aristóteles. Seus tratados filosóficos originais incluem: "Destructio Destructiones", uma refutação ao "Destruição dos Filósofos", de al-Ghazali, publicado em latim, em Veneza; dois tratados sobre a união dos intelectos ativo e passivo, também publicado em latim, emVeneza; tratados lógicos sobre as diferentes partes do "Organon", publicado em Veneza; tratados médicos baseados na "Física", de Aristóteles; um tratado em resposta a Avicena; e um outro sobre a concordância entre a filosofia e a teologia, sendo que estes dois últimos só existem os textos em hebraico e árabe.

Averróes foi criticado por muitos sábios muçulmanos por causa da resposta dada a al-Ghazali em "Destructio Destructiones", o qual, no entanto, exerceu uma profunda influência no pensamento europeu, pelo menos até o início da filosofia moderna e da ciência experimental. Suas opiniões sobre destino eram que o homem não tem o controle total sobre seu destino e nem o destino é completamente predeterminado.

Averróes tinha grande consideração por Aristóteles, cuja palavra era para ele a expressão mais elevada da verdade em questões de ciência e filosofia. Nesta admiração exagerada para o filósofo, ele foi muito além do que qualquer outro estudioso.

Averróes defendeu o princípio da verdade em duas partes, afirmando que a religião tem uma esfera e a filosofia tem outra. A religião, dizia ele, é para as multidões incultas; a filosofia para uns poucos escolhidos. A religião ensina por intermédio de sinais e símbolos; a filosofia apresenta a verdade por si mesma. Mas, embora o filósofo perceba que o que é verdade na teologia é falso na filosofia, ele não deve, por causa disso, condenar a instrução religiosa, porque assim privaria o povo do único meio pelo qual ele pode alcançar o conhecimento (simbólico) da verdade.

A filosofia de Averróes, como a de todos os outros filósofos árabes, é uma mistura do aristotelismo com o neo-platonoismo. Nela encontramos a doutrina da eternidade da matéria como um princípio positivo do ser; o conceito de uma multidão de espíritos ordenados hierarquicamente entre Deus e a matéria e a mediação entre eles; a negação da Providência no sentido mais comumente aceito; a doutrina de que cada uma das esferas celestes é animada; a noção da emanação ou extração, como um substituto da criação; e, finalmente, a glorificação do conhecimento místico (racional) como a aspiração máxima da alma humana, em suma,todos os elementos caracterizadamente platônicos e que os árabes acrescentaram ao aristotelismo puro.

O que é peculiar na interpretação que Averróes faz de Aristóteles, é o significado que ele dá à doutrina aristotélica do Intelecto Ativo e Passivo. Seu predecessor, Avicena, ensinou que, enquanto o Intelecto Ativo é universal e separado, o Intelecto Passivo é individual e inerente à alma. Averróis afirma que tanto o Intelecto Ativo como o Intelecto Passivo são separados da alma individual e são universais, isto é, um para todos os homens. Ele acha que Alexandre de Afrodísia estava errado ao limitar o Intelecto Passivo a uma simples disposição e que os "outros comentaristas" (talvez Themistius e Theophrastus) erravam ao descrevê-lo como uma substância individual dotada de disposições; ele afirma, ao invés, que é uma disposição em nós, mas pertencente a um intelecto fora de nós. Os termos passivo, possível e material, são usados sucessivamente por Averróes para designar essas espécies de intelecto, que, em última análise, se prescindirmos das disposições de que ele fala, é o próprio Intelecto Ativo. Além disso, Averróes também fala do Intelecto Adquirido, referindo-se à mente individual em comunicação com o Intelecto Ativo. Portanto, conquanto o Intelecto Ativo seja numericamente um, existem tantos intelectos adquiridos quanto sejam as almas individuais com as quais o Intelecto Ativo estabelece contato. (Os escolásticos falam de um prolongamento do universal com a mente individual, traduzindo literalmente do árabe, que aqui siginifica contiguidade, ao invés de união). O sol, por exemplo, na medida em que é e permanece uma fonte de luz, multiplica-se e se transforma em muitas fontes de luz, e, assim, ilumina muitos corpos; o mesmo acontece com a mente universal e as mentes individuais que entram em contanto com ela. A precariedade desta doutrina, como uma explicação psicológica da origem do conhecimento é não considerar os fatos da consciência, que indicam que não é simplesmente uma disposição individual, e sim um princípio ativo individual, que entra em ação e que se expressa pela palavra "Penso!". Um outro ponto é que deixa sem resposta a questão da imortalidade da alma individual.

Na verdade, Averróes admitia abertamente sua inabilidade em lidar com as bases filosóficas da doutrina da imortalidade individual, satisfazendo-se em mantê-la como um dogma religioso. A maior influência de Averróes foi como crítico. Suas doutrinas tiveram um destino variado nas escolas cristãs. Primeiro, elas asseguram uma certa quantidade de adeptos, depois, aos poucos, sua incompatibilidade com os ensinamentos cristãos tornou-se aparente e finalmente, devido à revolta do Renascimento em relação à Escolástica, elas garantiram, mais uma vez, uma audiência temporária. Seus comentários, no entanto, alcançaram um sucesso imediato e duradouro. São Tomás de Aquino usou o "Grande Comentário" de Averróes como seu modelo, sendo, à primeira vista, o primeiro escolástico a adotar aquele estilo de exposição; e embora rebatesse os erros de Averróes, e tenha dedicado diversos tratados com essa finalidade, ele sempre falava do crítico árabe como um dos que tinha corrompido a tradição peripatética mas cujas palavras, no entanto, deveriam ser tomadas com respeito e consideração. O mesmo pode ser dito sobre as referências de Dante a ele. Foi após São Tomás de Aquino e Dante que Averróes começou a ser apresentado como o "arqui-inimigo da fé".

Um exame cuidadoso de sua obra, no entanto, revela que ele era profundamente religioso. Como exemplo, encontramos em seus escritos que "qualquer um que estude anatomia aumentará sua fé na onipotência e unicidade de Deus, o Todo Poderoso." Em sua obra médica e filosófica,percebemos a profundidade de sua fé e conhecimento do Alcorão e das sunas, que muitas vezes ele cita para amparar seus pontos de vistas em diferentes assuntos. Averróes disse que a felicidade verdadeira para o homem pode ser alcançada através da saúde psíquica e mental e que as pessoas não podem usufruir de uma saúde psicológica se não seguirem os caminhos que levam à felicidade na outra vida, e que acreditem em Deus e na Sua unicidade.

Averróes dizia que o Islam objetiva o conhecimento verdadeiro, que é o conhecimento de Deus e de Sua criação. Este conhecimento verdadeiro também inclui o conhecimento dos vários meios que levam à satisfação mundana e evitam a miséria na outra vida. Este tipo de conhecimento prático abrange dois ramos: (1) a jurisprudência, que lida com os aspectos materiais e tangíveis da vida humana; e (2) as ciências espirituais, que lidam com questões como paciência, gratidão a Deus e moral. Ele compara as leis espirituais à medicina em seu efeito sobre os seres humanos do ponto de vista físico e do ponto de vista moral e espiritual. Ele assinalou que a saúde espiritual é chamada de "taqwa" (temência a Deus) no Alcorão.

Averróes é tido como um dos maiores pensadores e cientistas do século XII. De acordo com Philip Hitti, ele influenciou o pensamento ocidental até o século XVI. Sua obra foi incluída em muitas universidades européias até o surgimento das ciências experimentais modernas.
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Raymond-Claude-Ferdinand Aron


Raymond-Claude-Ferdinand Aron(1905-1983), sociólogo francês, historiador, filósofo e jornalista político. Filho de um jurista judeu, passou seu doutorado em 1930 na École Normale Supérieure com a tese em filosofia da História. Foi professor de filosofia social na Universidade de Toulouse. Quando estourou a II Guerra em 1939, entrou para a Força Aérea Francesa. Após a queda da França, ele juntou-se às forças da França Livre do General Charles de Gaulle em Londres onde editou o jornal La France Libre ("A França Livre"), de 1940 a 1944. De volta ao seu país França tornou-se professor na École Nationale d'Administration, e, de 1955 a 1968 foi professor de sociologia na Sorbonne.

Aron tomou partido contra o movimento estudantil que incendiou Paris em maio de 1968. O movimento era a favor das drogas, da liberdade sexual e homossexual, e desencadeou uma onda planetária de permissividade e enfurecimento dos jovens. Segundo os estudantes, o objetivo do movimento era minar as idéias e valores da burguesia, e contra qualquer um que quisesse sustentar a lei e a ordem, a família e a religião. Era, para eles, a gloriosa tentativa de criar uma nova ordem, um novo mundo, um novo começo na política, na cultura e nas relações pessoais. Nos Estados Unidos, os estudantes forçaram os militares à retirada das forças americanas do Vietnam. No Brasil, levaram ao endurecimento do governo militar.

Em Paris, os baderneiros fluíram para o Quartier Latin, levantaram barricadas, viraram e incendiaram carros, e jogaram garrafas incendiárias na polícia que tentava restabelecer a ordem. Os estudantes eram estimulados por radicais da classe média, principalmente Jean-Paul Sartre e sua amante Simone de Beauvoir, Michel Foucault, Jacques Derrida e Julia Kristeva. Esses intelectuais, - e mais os políticos esquerdistas como François Mitterrand e Pierre Mendes-France -, saudavam os estudantes como "libertadores" que estavam ensinando aos mais velhos uma lição cultural. Um dos poucos a manter a cabeça no lugar foi Raymond Aron, que denunciou a coisa toda como uma grande tolice, uma "insensatez perniciosa"

Confirmando a posição de Aron, nas eleições então convocadas por De Gaulle os franceses derrotaram os rebeldes por uma diferença incomum de votos.

A partir de 1970 Aron foi professor no Collège de France. Toda a sua vida foi um jornalista ativo e a partir de 1947, por 30 anos, um influente colunista do Le Figaro. Deixou o jornal para ser, a partir de 1977, colunista político do semanário L'Express.

Aron sustentava um humanismo freqüentemente confrontado com o existencialismo marxista de seu contemporâneo Jean-Paul Sartre. Gozou de uma posição de autoridade intelectual entre os conservadores e moderados franceses. Entre os seus trabalhos mais influentes estão L'Opium des intellectuels ("O ópio dos intelectuais"), de 1955, que criticava o conformismo de esquerda e as tendências totalitárias dos regimes marxistas. Aron ele próprio tornou-se um forte apoio para a aliança ocidental que se formou após a guerra. Em La Tragédie algérienne ("A tragédia algeriana "), de 1957, ele proclamou seu apoio à independência da Algéria. e na République impériale: Les États-Unis dans le monde, 1945-1972 ("A República Imperial: Os Estados Unidos e o Mundo, 1945-1973"), de 1973, ele atacou a hostilidade obsessiva da esquerda francesa contra os Estados Unidos.

Um tema freqüente nos escritos de Raymond Aron foram as questões da violência e da guerra, como em Paix et guerre entre les nations ("Paz e guerra entre as nações"), de 1962. Também escreveu um importante livro de história da sociologia intitulado Les Étapes de la pensée sociologique ("As etapas do pensamento sociológico"), de 1967. Suas memórias foram publicadas em 1983.
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Aristóteles

Aristóteles, filho do médico Nicômaco, da família dos Ascleopiades que descendiam dos Esculápia, nasceu a 384 a. C. Sua cidade natal Estagia, ficava no litoral setentrional do Mar Ergeu. Durante sua vida teve duas esposas: a primeira foi Pítias, sobrinha do tirano Hermías, governante de Assos, antigo escravo e ex-integrante da Academia Platônica; a segunda foi Herpilis, que deu-lhe o filho Nicômaco.

O jovem Aristóteles, originário da Macedônia, chega a Atenas, centro intelectual e artístico da Grécia, em 367 ou 366 a. C., a procura de oportunidade para prosseguir seus estudos. Encontra naquela época duas grandes instituições educacionais que disputam a preferência dos jovens. Uma dirigida por Isócrates, seguidor da trilha dos sofistas, propunha-se a educar os jovens para a vida democrática ateniense, ensinando-os a arte da retórica. A outra fundada por Platão, em 387 a. C., “mostrava a seus discípulos que a atividade humana, desde que pretendesse ser correta e responsável não poderia ser norteada por valores instáveis, formulados segundo o relativismo e a diversidade das opiniões”, mas sim na investigação científica, “fundada na realidade”. Aristóteles fez opção pela Academia, mesmo sendo advertido de que ali não ingressava “quem não soubesse geometria”.

A condição de meteco de Aristóteles explicava porque não seguiu os passos do seu mestre – Platão – “um pensador político, preocupado com os destinos da Pólis e com a reforma das instituições”. Ele, freqüentador da Academia por vinte anos, dedicou-se a pesquisas biológicas, contrapondo-se ao “matematismo que dominava na Academia”. Seu “espírito de observação e a índole classificadora, típicas da investigação naturalista”, constituiu os traços fundamentais de seu pensamento. Aristóteles, diante das questões políticas, assume atitude de homem de estudo, isolando-se da cidade em pesquisas especulativas, fazendo da política um objeto de estudo e não uma ocasião para agir.

Em 347 a. C. morre Platão. Mesmo tendo uma destacada atuação, Aristóteles não é escolhido para substituir o mestre na direção da Academia.

A partir de 343 a. C. e por vários anos Aristóteles é encarregado da missão de educar Alexandre, filho de Filipe da Macedônia. Em 338 a. C. os macedônicos derrotam os gregos em Queronéia, chegando ao fim a autonomia das cidades-Estados.

No ano de 336 a. C. Alexandre sobe ao trono da Macedônia e inicia a construção de seu grande império, e neste momento Aristóteles retorna a Atenas.

É em Atenas que Aristóteles funda sua escola, próximo ao templo dedicado a Apolo Liceano, que recebeu o nome de Liceu, também chamada de peripatética.

A Escola Peripatética dedicou-se, especialmente, à indagação empírica, naturalista e histórica.

Uma curiosidade sobre Aristóteles. Consta que quando ele estava estudando, segurava em uma dadas mãos uma bola de cobre e se adormecesse cairia em uma bacia de metal, despertando-o.

Com a morte de Alexandre, em 323 a. C., Aristóteles passou a ser perseguido politicamente pelos anti-manedônicos. Ele deixou Atenas e refugiou-se em Cábeis, no sudeste da Ilha de Eueria, onde morreu no verão de 322 a. C., aos 62 anos.

OBRA DE ARISTÓTELES
A Obra de Aristóteles é vasta, foi escrita para dois públicos distintos: uma parte endereçada aos seus discÍpulos no Liceu, os Escritos ditos filosóficos ou científicos; a outra parte destinada à publicação para o grande público, as Obras exotéricas, redigidas em forma mais dialética do que demonstrativa.

Aristóteles dizia que “a filosofia é essencialmente teoria” e que o “homem é uma unidade substancial de alma e corpo”, além de afirmar “que todo movimento implica uma passagem de um estado a outro”.

As principais obras e seus enfoques:

Escritos lógicos: considerava a lógica instrumento da ciência e da filosofia.

Escritos sobre a física: abarcava a cosmologia e a antropologia dentro da filosofia teorética, além da metafísica. Analisava os diversos tipos de movimentos, no espaço e no tempo.

Escritos metafísicos: a metafísica. Esta obra de 14 livros foi editada após a sua morte, a partir de manuscritos sobre a metafísica geral e teológica. A metafísica “ciência do ser como ser, ou dos princípios e das causas do ser e dos seus atributos essenciais”, abrangendo do ser imóvel à Deus. Age a partir de 4 doutrinas: da potência e do ato, da matéria e da forma, do particular e do universal, do motor e da coisa movida.

Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco, em dez livros; a Ética a Eudemo, inacabada; a Grande Ética, compêndio das duas anteriores, com maior destaque para a Ética a Eudemo; a Política, com 8 livros inacabada. Coloca o Estado como superior ao indivíduo.

Escritos retóricos e poéticos: a Retórica, em 3 livros; Poética, em 2 livros.
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Hannah Arendt


Alemã, Hannah Arendt (1906-1975), nasceu numa abastada e antiga família judia. Sempre resistiu ao título de Filósofa, pois considerava-se, “apenas” uma pensadora. Afirmava que o pensamento deve estar a serviço da vida e não numa encapsulada Filosofia. Teve o privilégio de ser aluna e amiga pessoal de Heidegger, Husserl e de Jaspers, expoentes da corrente filosófica fenomenológico-existencial.

Diferente da ontologia metafísica antiga, cuja origem remonta a Platão, a fenomenologia existencial parte das coisas que aparecem no mundo. Tomemos o seguinte exemplo: a experiência sensível (de onde também parte a razão científica) nos permite constatar se alguém está ou não morto. Já o conceito da morte em si, cabe à metafísica. Arendt se debruça sobre os fenômenos em seus modos de aparição na existência mundana pois, para a fenomenologia “ser” e “aparecer” coincidem.

Em 1933, Hitler toma o poder e Hannah Arendt, judia, vê ruir a possibilidade de lecionar nas universidades alemãs. Perseguida pelo nazismo, passa a viver como apátrida, em exílio. Essas circunstâncias são extremamentes relevantes para a compreensão das obras desenvolvidas em sua vida: meditações filosóficas, análises de teorias políticas e tentativa de explicar os inusitados e nefastos rumos de seu tempo.

Em 1951, com “Origens do Totalitarismo” (termo cunhado por ela que significa governo, país ou regime que centraliza todos os poderes políticos e administrativos, proibindo a atuação de quaisquer outros partidos ou grupos políticos) detém-se a analisar de modo sistemático esse fenômeno inédito, que não se enquadrava nas categorias tradicionais das ciências políticas.

Arendt testemunha o antigo e complexo enlace entre moral e política (vide artigo “A Lei Divina (Thémis) e a Lei dos Homens (Diké) em Antígona, disponível nesse site) vexatória e desumanamente rompido nos tempos em que viveu; revela a necessidade de recuperar a dignidade da política como atividade (práxis) fundamental da vida em comum.

Com base numa antropologia filosófica, responderá sobre em que condições um universo totalitário é possível. Filósofa do real (existencialista), Arendt tomará por objeto de estudo a vida ativa (que atua, age no mundo e não a contemplativa, tradicional na Filosofia) vendo-a por três modalidades de atividades fundamentais do homem na cultura: trabalho, obra e ação.

Sobre o trabalho, atesta ser uma atividade indefinidamente repetitiva e voltada exclusivamente para satisfação e preservação das necessidades vitais humanas. O trabalho em si é, portanto, produção de tudo o que é perecível.

Quanto ao que denominou “obra”, cabe a produção de bens duráveis, artefatos e objetos que não são aniquilados assim que consumidos. Mas mesmo essa “durabilidade” é relativa e está sujeita/submetida à utilidade e ao ciclo dos meios e dos fins.

Somente a ação é, em suas palavras, “a única capaz de transcender o ciclo da necessidade vital e da cadeia infinita dos meios e dos fins. Inseparável da palavra, a ação é revelação do homem, num espaço público de surgimento [pólis] em que cada um é visto e ouvido por todos”.

Em sua obra “A condição humana” (1958), observa que “estar isolado é estar privado da capacidade de agir”. Mesmo não sendo privilégio exclusivo do ator político, a ação humana enseja a constituição de um espaço público (distinto do âmbito privado) por onde se estende toda a vasta rede de relações/atuações humanas. A ação se dá no espaço público. Por outro lado, a ação que se dá no espaço público não pode perder a conotação individual. Em verdade, não agimos quando somos levados pelo coletivo que se manifesta através de nós. Nesse sentido, o sociólogo Zygmunt Bauman, em sua obra “Ética pós-moderna” alerta que, “Na multidão, somos todos iguais. Andamos juntos, dançamos juntos, nos acotovelamos juntos, ardemos juntos, matamos juntos”.

Não há porque agirmos como marionetes guiadas por determinismos históricos ou de qualquer outra ordem. A liberdade está em nosso poder de criar o novo: “O começo é a suprema capacidade do homem; politicamente, equivale à liberdade do homem” (Origens do Totalitarismo).

Transformar as diferenças em monotonia (unidade) é a tentação permanente das sociedades totalitárias. O nazismo e o comunismo foram as expressões máximas desse desejo de unidade.

Em 1963, a serviço do The New Yorker, imbuída de compreender o que leva um ser humano a, estupidamente, recusar-se a pensar, a refletir sobre seus atos (uma das causas que levam a se perder o individual), Hannah Arendt parte para a cobertura jornalística do julgamento do general Karl Adolf Eichmann, um dos responsáveis pelo planejamento e execução de milhões de judeus. Publica Eichmann em Jerusalém. A obra surpreende ao revelar suas impressões: o responsável por tantas atrocidades não era nenhum demônio encarnado (o que lhe rendeu incompreensão e severas críticas da própria comunidade judaica). Tratava-se de uma pessoa absolutamente “normal”, um típico burocrata, manipulado pela ideologia alemã, um mero executor de ordens que zelava por seus deveres e pelo cumprimento de seu trabalho.

A perversidade do sistema totalitário cria pessoas destituídas da mínima capacidade de distinguir o bem do mal, de atentar para as conseqüências de suas ações, pois encobrem-se no coletivo. Cegos, buscam, unicamente, ascender socialmente no exercício de suas profissões sem questionar o éthos do que lhes compete.

Hannah Arendt apontou para a necessidade de refletirmos sobre o fato de que regras arbitrariamente preestabelecidas nos tornam incapazes de gozar das faculdades básicas do espírito individual, seqüestrando nossa liberdade. Ao negar ao homem a liberdade de pensar, refletir, julgar e escolher, fomentamos a existência do totalitarismo.
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