Anna Andreievna Gorenko

sexta-feira, 29 de maio de 2009


Nasceu no mesmo ano em que nasceram Chaplin, a Sonata de Kreutzer de Tolstoi, a Torre Eiffel e TS Elliot. Saiba que estamos a falar de 1889. Foi nos arredores do porto de Odessa, mais precisamente a 24 de Junho.
Chamaram-lhe Anna, em honra da avó morta e na família não havia poetas, só uma tia do avô Stogov, proprietário rural desterrado por ter participado num motim. Também tinha uma princesa no rol de antepassados, descendente de Gengiscão, de apelido Akhmatova. Foi assim que Anna passou a assinar a poesia, porque o pai não queria ver o seu nome, Gorenko, naquelas lamechices.

Escreveu o primeiro poema aos 11 anos e casou cedo com o poeta Gumiliov de quem teve um filho, Lev. Eram acmnistas, ou seja, exprimiam sentimentos de forma concisa, o que foi o fim dos simbolistas como Alexander Block.
O fim de Gumiliov foi em 1921, quando levou um tiro dos bolcheviques por ser contra-revolucionário. Já estavam divorciados desde 1918 e Anna tinha um segundo marido, o orientalista Chileiko de quem se separou também.
Em 1926 vive com Nikolai Punin e em 1935 este e Lev são presos e depois libertados. Em 1938, Anna separa-se de Punin e Lev é preso outra vez, mas por pouco tempo.

Este desassossego teve um interregno durante a Segunda Guerra. Foi para Anna tempo de sucesso na rádio, onde lia os seus poemas porque Estaline achava que era a altura de usar a poesia para levantar o fervor patriótico russo.
Depois da guerra foi proscrita, declarada "uma combinação de 'freira e de prostituta'" cuja poesia nada teria a ver com o povo. Foi-lhe dado emprego numa biblioteca, e escrevia às escondidas, sem poder publicar. Com o filho Lev, deportado na Sibéria desde 1946, Anna produziu uns poemas a louvar Estaline, mas de nada lhes serviu. Lev ficou preso nas neves até 1956 quando Krutchov assumiu o poder e Anna saiu do estado de desgraça estalinista em que tinha vivido.

Em 1964 tornou-se presidente da União dos Escritores Soviéticos e em 1965 recebeu um doutoramento 'honoris causa' em Oxford. Morreu em 1966, reabilitada e considerada a "Anna de todas as Rússias".

Anna começou a sua carreira como uma poetisa do amor, talvez a maior do século XX mas o que marcou, definitivamente, a sua poesia foi o tributo ao sofrimento do povo russo desde os milhões que morreram na guerra civil que se seguiu à revolução bolchevista, passando pelos milhões de mortos nos longos anos de Estaline e ainda a fome, a miséria e o medo dos que como ela, não se exilaram e viveram vidas trágicas.

A sua poesia era moderna, sem ser ainda modernista. Joseph Brodsky, outro poeta russo que foi seu amigo nos últimos anos de vida, definiu-a como " uma poetisa de métrica estrita, rimas exactas e frases curtas. A sintaxe é simples, e livre de cláusulas subordinadas... Anna é o produto da tradição de Petersburgo assente no classicismo europeu e nas suas origens gregas e romanas".
Esta é a forma, os conteúdos passaram do amor ao pesar - a partir dos anos 30, com alguns épicos durante a Segunda Guerra, odes à coragem de resistir ao invasor alemão e ao poder da poesia como fio condutor de uma civilização.

Como escrevem Nina e Filipe Guerra - na introdução da colectânea "Só o sangue cheira a sangue" que traduziram para português e publicaram na Assírio e Alvim, Akhmatova é "poeta do lirismo íntimo, a sua obra é uma constante confissão... tem o segredo da sinceridade e autenticidade".

Escreveu mais de 800 poemas. Para além do primeiro, aos 11 anos "A Voz", de "Requiem", "Coragem", "Voo Branco" e "A Corrida do Tempo" é preciso saber que Anna demorou mais de 20 anos a escrever "Poema sem Herói" onde faz referência ao filósofo inglês nascido na Rússia, Isaiah Berlin que a visitou em São Petersburgo em 1945. O encontro com esse "viajante do futuro", de passagem pela Rússia, custou a Anna a prisão do filho e a sua queda em desgraça durante o regime de Estaline. Só se voltaram a encontrar em Oxford, em 1965 onde Berlin era professor.

Falar da Anna de todas as Rússias é falar da tragédia "humAnna", dos tempos de Estaline e de como foi possível, a alguém, fazer disso poesia. Também escreveu prosa autobiográfica e sobre Pushkin. Foi amiga de Boris Pasternak, Mandelstam, Block e conheceu Tsvetaeva.

Saiba que Anna era uma mulher bonita, elegante, aliás escanzelada porque passou muita fome, uma mulher que suscitou paixões, que foi desenhada por Modigliani, fotografada por Nappelbaum, esculpida por Danko e pintada por Tyrsa e Vodkin. Em velha, e mais gordinha, manteve o ar distante e triste com que passou a vida a ver a família e amigos desaparecerem de forma mais ou menos violenta, enquanto fazia fila para racionamentos e se recusava a fugir ao destino dos seus compatriotas.
 
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